As árvores acalmam e ajudam-nos a recuperar, a sarar, a harmonizar. Quando vemos imagens de hospitais do fim do séc. XIX e início do séc.XX vemos que são densamente arborizados. É verdade que é difícil de medir os efeitos da exposição às árvores, dependerá sem dúvida da receptividade de cada um, sendo que as árvores também não são todas iguais – mas parece indiscutível que elas nos fazem bem.
No Japão existe a prática do banho de floresta – shinrin-yoku . Há estudos envolvendo grupos diversificados de populações japonesas na prática do banho de floresta, nos quais se fizeram registos regulares dos indicadores de stress com parâmetros simples como a tensão arterial, o batimento cardíaco, e os níveis de cortisol. Os efeitos calmantes destes banhos e o efeito das árvores na atenuação do stress apresentam-se como evidentes.
É já reconhecido que as árvores podem estimular o nosso sistema imunitário. Para além do shinrin-yoku, já referido, empregam-se também as aromaterapias para reforçar as defesas imunitárias. As árvores produzem substâncias voláteis denominadas phytoncides, que são essenciais aos bosques na protecção das infecções microbianas. Estas mesmas substâncias são susceptíveis de ativar os nossos linfócitos – um passeio de um dia ou dois na floresta tem efeitos durante um mês na atividade dos linfócitos. Basta inspirar para captar as substâncias que voltejam em redor, verdadeiros elfos bem feitores. É a bio-inspiração, literalmente.
Esta partilha generosa vai para além dos efeitos no sistema imunitário – há substâncias com efeito antioxidante, anti-inflamatório e até que influenciam a regeneração dos ossos. Talvez com estes estudos, e outros que se seguirão, possamos encontrar alguma explicação para a nossa ligação íntima com as árvores.
Talvez se goste da sua companhia, porque o corpo sabe o bem que nos fazem.
Referências – Penser comme une arbre de Jacques Tassin
Próximo evento – manhã de Chi Kung e almoço – dia 5 de Junho
Neste regresso à prática presencial, em comunhão e em grupo, vamos explorar a intimidade com a natureza, entregando o corpo à intensidade dos sentidos e à possibilidade de metamorfose universal. Sermos inspirados pela arte da natureza – na relação de sensibilidade que nos toca e apazigua as turbulências do corpo e espírito.
Programa de Chi Kung com Margarida Bettencourt
10.00 às 13.00 – prática com caminhada e mergulho no bosque
treino de quietude – posturas Zhan Zhuang – estar de pé como uma árvore
partituras e exercícios de percepção no habitar do corpo e do espaço
caminhar – ato de relação e intuição
13.00 às 14.30 – Almoço florido e colorido
Limonada de frutos vermelhos -creme de beterraba com amor perfeito – rolinhos de courgete com húmus de tempeh e tâmaras em cama de polenta cremosa – salada floral – cheese cake de morango
Tudo no vivo é simplesmente articulação da respiração: da percepção à digestão, do pensamento ao gozo, da palavra à locomoção. Emanuele Coccia – A Vida das Plantas
Práticas de Cuidado e Utopia – 4ª edição – via Zoom
com Margarida Bettencourt
Tendo como referência o enunciado de que a respiração está no fundo de todas as nossas experiências, o programa é dedicado a uma imersão neste movimento primordial – sondar, apreciar, decifrar, intuir – respirar para saborear o mundo.
O programa pretende explorar e integrar a experiência mais racional e analítica do lado esquerdo do cérebro, com o lado direito que tem a faculdade de contemplar a dimensão profunda e misteriosa da realidade, do corpo e da vida.
Exercícios de respiração, percepção e consciência do aparelho respiratório, relação da respiração com o sistema neuro-vascular – uma prática de dedicação profunda incorporando de uma forma experiencial a anatomia e funcionalidade do aparelho respiratório – explorando a forma de habitar o corpo e ser no mundo.
O treino nas posturas arquetípicas Zhan Zhuang – interrogar o corpo, a sua forma, a sua consistência dentro do sopro – numa imersão vibrante em que deixa de existir oposição entre movimento e imobilidade.
Sessão de duas horas – 20 de Março de 2021 – 10.00 às 12.00
5 sessões de 30 min – 22 a 26 de Março – 8.00
O programa consiste numa sessão de imersão profunda de duas horas – e cinco sessões matinais breves. As sessões matinais serão gravadas e disponibilizadas aos participantes que não tenham disponibilidade no horário indicado.
O intuito é potenciar a criação de um treino regular autónomo através da prática de integração e exploração durante a semana seguinte.
Há tempos assisti a uma entrevista com a campeã do mundo de mergulho profundo na modalidade de lastro constante. Falando sobre a experiência do mergulho profundo, referiu-se à capacidade de rendição à pressão como crucial para o sucesso de um mergulho – à medida que o corpo desce, e aumenta progressivamente a pressão a que é sujeito, a rendição à pressão consiste em relaxar o corpo, numa entrega à força da água – reduzir a resistência, sustentar a integridade da estrutura, mantendo o foco e a direcção, tranquilamente.
A descrição do extraordinário mergulho de Alenka Artnik é impressionante. Numa manhã de Novembro de 2020, ao largo da costa egípcia, nas águas mornas do Mar Vermelho, vestida com um fato de mergulho fino de cor roxa, de monobarbatana, e um peso de kilo e meio à volta do pescoço, inspira e mergulha, sem máscara, seguindo um cabo que desce à profundidade de 114m.
Ela mantém-se presente e calma. De pulmões cheios de ar, desce no profundo azul, impulsionada pelo batimento das pernas.
Em descidas de água profunda, a pressão barometrica aumenta a cada 10m – aos 20m de profundidade os pulmões de Alenka são comprimidos para um terço da sua capacidade – nesta altura desloca para a boca o ar necessário para equalizar os pulmões. Na eventualidade de os lábios deixarem escapar ar, o risco e o perigo tornam o mergulho inviável.
Aos 70 metros Alenka fecha os olhos, pára os batimentos de pernas e é sugada para baixo pelo ímpeto de sucção – rende-se à queda livre – suspende o pensamento e o movimento – o pensamento requer oxigénio. Na descida progressiva nota o aumento de pressão – como um abraço do oceano.
Quando o relógio de mergulho assinala 109 metros, a cinco metros do objectivo, o mergulho já dura há quase dois minutos. Abre os olhos quando chega ao fim do cabo, recolhe uma marca de controle, vira-se e inicia a ascensão. Para regressar à luz e ao ar, tem agora que nadar contra o peso da água, o que se assemelha a nadar contra a corrente.
A próxima inspiração está a quase dois minutos de distância.
A subida é a parte mais perigosa de qualquer mergulho profundo porque o nível de oxigénio dos mergulhadores está muito baixo, colocando-os em risco de desmaio. Mergulhadores de segurança acompanham os atletas, treinados na observação de sinais de hipoxia, para em caso de perigo os agarrarem e conduzirem à superfície.
Alenka mantém os batimentos de pernas equilibrados e harmoniosos, assomando tranquilamente à superfície depois de um mergulho de três minutos e 41 segundos.
Segura o cabo, inspira rápida e repetidamente para promover a re-oxigenação. Cumpre todos os protocolos de superfície necessários para o juíz. Alenka remove a mola do nariz, apresenta a sua marca de controle, e diz as palavras ansiadas, suave mas claramente, “estou bem.”
A descrição do mergulho é uma adaptação e tradução livre da reportagem de Adam Skolnick – NYT
Uma hora depois de nascer o bebé humano começa a imitar os gestos dos adultos que o rodeiam, e demonstra claramente regozijo com as respostas que obtém; reconhecemos assim uma relação íntima entre as acções do corpo dos outros e os nossos estados internos. A neurociência contemporânea diz-nos que o movimento do corpo é um dos processos mais importantes na aprendizagem sobre nós próprios e na descoberta do mundo que nos rodeia. Os movimentos do corpo criam as nossas ideias e sentimentos – gestos não são apenas reflexos do pensamento, ajudam a formar o pensamento.
Este programa propõe a devoção ao corpo – no movimento de profundo reparar.
Modalidades
Com o intuito de ter uma oferta mais flexível e versátil de possibilidades de prática permitidas por este formato online, serão disponibilizadas as seguintes modalidades, todas via Zoom:
Aulas regulares nos dias e horários que já estavam estabelecidos – detalhes do programa abaixo
2ª feira – 9.00 às 10.15 – 18 Movimentos de Tai Chi – Shibashi
3ª feira – 19.00 às 20.15 – Treino da Quietude – Zhan Zhuang
5ª feira – 19.00 às 20.15 – Passos em Chi Kung – a Dança da Saúde
Valor – 5€ por aula / 40€ livre trânsito mensal
Acesso às gravações das aulas regulares – as aulas regulares serão gravadas e disponibilizadas a quem pretende frequentar o programa – não podendo estar presente por incompatibilidade de horários.
Valor – 5€ por aula / 40€ livre trânsito mensal
Sessões de Aprofundamento e Investigação – duas horas de prática, um sábado por mês, com tema a anunciar.
Próxima data 16 de Janeiro – 10.00 às 12.00
Valor – 20€ por sessão de duas horas
Sessões Individuais de Tutoria – sessões de prática com duração de 50 min., acompanhamento individualizado, marcação em horário a combinar.
18 Movimentos – Shibashi – 2ª feira – 9.00 às 10.15
Shibashi, também conhecido por Tai Chi Chi Kung em 18 movimentos é um sistema de exercícios com movimentos fluídos e contínuos. É um sistema bastante recente, criado em 1982 , e que se tornou uma disciplina obrigatória dos cursos de Medicina Tradicional Chinesa. Atribui-se a estes movimentos efeitos tonificantes e relaxantes consideráveis, que potenciam o fluir harmonioso da energia dos meridianos. Os exercícios introduzem elementos básicos de transições de peso, coordenação de braços e pernas, e integração da respiração com o movimento. Os movimentos são suaves e fluídos, com estiramentos moderados combinados com respiração coordenada, encorajando a libertação de tensões profundas nos tecidos dos sistemas musculares e neuro-vasculares.
Treino da Quietude – 3ª feira – 18.45 às 20.00
Com muito pouco movimento exterior, Zhan Zhuang é das formas mais potentes da disciplina de Chi Kung. Trata-se de um sistema singular que trabalha o funcionamento do corpo humano através de uma série de posturas cuidadosamente escolhidas ao longo de uma tradição milenar.
A prática sugere o desenvolvimento de grande força interna, como a que se desenvolve numa árvore magnífica. Estes exercícios podem ser praticados por qualquer um, sendo irrelevante a idade ou estado de saúde. Os movimentos e posturas são simples e a forma como afectam cada um depende das necessidades e capacidades individuais.
Interiormente alerta, aberto, calmo.
Exteriormente vertical, expansivo, de espírito pleno.
Este é a fundamento da quietude.
Juntar o duro e o suave, o poderoso e o folgado,
Movimento e quietude, contração e expansão:
No momento de convergência, existe poder.
Wang Xiang Zhai
Passos em Chi Kung e Dança da Saúde – 5ª feira – 18.45 às 20.00
Quando caminhamos movemo-nos de um lugar para outro usando as pernas. É um processo de mudança – e os processos de mudança podem ser dramáticos e desafiantes – expõem-nos à vulnerabilidade e à inquietação. Todas as grandes tradições de pensamento e reflexão investigam os processos de mudança e como lidamos com eles. Numa prática profunda de corpo, a disciplina do treino dos passos integra conceitos contraditórios – a quietude e o movimento – criando um treino na demanda de um equilíbrio flexível e dinâmico. A Dança da Saúde integra e explora estas noções dando espaço a uma forma mais espontânea e livre de habitar o corpo e a prática.
Em grego a palavra psyche significa ‘alma’, e tem a mesma raiz de psychein que significa ‘respirar’; a palavra grega pneuma, que significa ‘espírito’, também é a palavra usada para ‘vento’. Neste dia de maravilhoso alinhamento do Cosmos vamos apreciar e admirar o impulso da inspiração – um treino de devoção – em que o coração é o órgão amoroso de repetição.
Programa
O Coração e o Diafragma na respiração
Pousar a mente – espaço interno – espaço externo – uma pulsação
Do coração às mãos
A vibração dos Cinco Elementos – exploração de posturas Zhan Zhuang
Inscrição
theplacetopause@gmail.com
É necessária a inscrição para obter dados de acesso à sessão Zoom
Práticas de Cuidado e Utopia – 3ª edição Os Animais em Chi Kung como Metodologias de Transformação Sábado 12 de Dezembro das 10.00 às 12.00 via Zoom
Na terceira edição deste programa vamos continuar o mergulho na investigação e exploração destas formas como possibilidades de metodologias de transformação – para a criação de uma sensibilidade corporizada, viva e compassiva.
Em filosofia utiliza-se o termo performatividade ( em inglês – performativity ): a forma como falamos afecta comportamentos, que por sua vez dão origem a teorias e modos de pensar. Proponho desenvolver esta performatividade na forma como nos movemos e habitamos o corpo. Podemos assim cumprir profecias de uma auto-realização através do corpo, do pensamento e do espírito.
Compreendemos melhor o mundo quando trememos com ele, porque o mundo treme em todas as direcções. Edouard Glissant
Programa:
ciclos de geração e moderação nos Cinco elementos
a inspiração, a expiração, o movimento do ar no corpo
. a repetição e a atenção como processo de transcendência
Os Animais em Chi Kung como Metodologias de Transformação
Sábado 14 de Novembro das 10.00 às 12.00 via Zoom
Sympoiesis é uma palavra simples de origem grega que quer dizer ‘fazer com’. É uma palavra adequada para descrever qualquer tipo de sistemas complexos, dinâmicos, sensíveis, localizados e…com uma história.
No desenvolvimento da minha prática, que é muitas vezes solitária, tenho me confrontado com o desafio de descobrir e criar formas de relação que nutrem e alimentam a curiosidade que sustentam o treino e o trabalho de corpo.
Nas artes marciais há uma sensibilidade e sensualidade comparável que faz parte do treino mas que, muitas vezes fica restrita a interacções que só podem ser concebidas como competitivas ou cooperativas. Parece-me que a riqueza e o potencial da intimidade do encontro com o corpo abre possibilidades “rendilhadas” que se revelam no fazer e desfazer de nós, e na evolução e involução de padrões absolutamente extraordinários. Assim nunca estamos sozinhos, e esta noção de sympoiesis pode traduzir-se numa expansão de percepção, poros abertos, cabelos e pelos eriçados, uma escuta apurada e sensibilidade atenta que expande a prática e a mantém viva, curiosa e entrançada com tudo que nos rodeia.
Nesta manhã com duas horas de prática profunda, vamos voltar a mergulhar no universo do sistema dos Cinco Animais ao encontro da experiência desta sensual curiosidade celular como motor vital da existência.
Programa:
– a manifestação dos Cinco Elementos nos Cinco Animais – o ciclo de moderação Terra – Água – Fogo
– o diafragma e o pericárdio no enraizamento do coração
– libertação do pescoço e dos braços através do sistema neuro-vascular
Os Animais em Chi Kung como Metodologias de Transformação
Sábado 17 Outubro das 10.00 às 12.00 via Zoom
O Corpo não é algo em que só reflectimos de vez em quando. Fazemos o corpo, adquirimos o nosso próprio corpo – e esse é um processo de mutação e transformação, um projecto aberto, cheio de possibilidades.
Vivemos um tempo em que a vulnerabilidade do corpo está a ser dramaticamente exposta e revelada. No entanto, a atitude radical pode ser o aceitar dessa vulnerabilidade, ser objetor de consciência e recusar a atitude marcial. Através de uma prática criativa desenvolver a habilidade de sentir a totalidade das coisas como parte de cada um de nós – ser responsável de uma forma vital e apaixonada.
Em Chi Kung, como em muitas práticas tradicionais de corpo, a Natureza e os animais são inspiração para muitos dos movimentos e formas exploradas. Proponho a investigação e exploração destas formas, como possibilidades para uma metodologia de transformação – uma sensibilidade corporizada, viva e compassiva.
Programa:
– introdução ao Sistema Wudang dos Cinco Animais
– tecnologias de reconfiguração, percepção e sobrevivência